Reflexões sobre o sistema de saúde holandês: Quais as oportunidades para um envelhecimento ativo e sustentável no contexto brasileiro?

A pandemia intensificou os desafios já existentes no sistema de saúde brasileiro, evidenciando uma rota de colisão entre as necessidades de saúde e a estrutura do nosso sistema.

Então devemos agir, pensando em resultados a longo prazo. Como iremos oferecer um sistema de qualidade a custos acessíveis, para uma população que está envelhecendo, com diversas condições crônicas, amplificadas pelos fatores de risco? Temos um sistema fragmentado e agimos de forma episódica e reativa, o que dificulta um resposta eficaz e de qualidade.

Neste questionamento, fica evidente que necessitamos de uma reforma urgente do nosso sistema tradicional de saúde.

Por outro lado, o sistema de saúde holandês é uma referência em qualidade de vida, que tem como destaque o papel da atenção primária como o centro dos atendimentos, onde 96% dos problemas de saúde são resolvidos sem referenciar para os especialistas.

A Holanda prioriza políticas públicas, totalmente focadas em projetos que englobam prevenção, atendimento a idosos, inovação e foco no paciente, conseguindo assim entregar saúde à população de forma sustentável e com qualidade.

Obviamente, não tem como dizer que o cenário da Holanda é o futuro do Brasil, dadas as heterogeneidades de cada país, a sua dimensão e o seu contexto político, econômico e social. Entretanto, tendo como base de comparação a pirâmide etária da população e a persistente necessidade de um sistema de saúde que atenda as demandas, conseguimos sim, enxergar oportunidades de desenvolvimento para o sistema de saúde brasileiro.

ESTRUTURA DO SISTEMA HOLANDÊS

A Holanda é uma monarquia constitucional e junto com os ministros o rei constitui o governo nacional, o qual regula e supervisiona o sistema de saúde. Existem diversas atuações do sistema de saúde holandês, entre elas:

Fonte: Healthcare in the Netherlands. University of Groningen.
Faculty of economics and business.

Em relação às seguradoras, é mandatório que todos os holandeses tenham um pacote básico de seguro-saúde. Sendo ilegal as companhias de seguros recusarem o plano básico a qualquer pessoa, independentemente da sua condição de saúde.

O governo, as empresas e os cidadãos de maior renda contribuem com impostos para o equilíbrio. O cidadão pode escolher a seguradora e o médico, tornando o sistema altamente competitivo entre as seguradoras para oferecer o melhor preço.

Na prática, as operadoras pagam seus provedores por um preço de referência para o cuidado, dependendo da sua complexidade. E isto faz com que os provedores busquem o melhor atendimento, com menor custo, para que este preço de referência caia, beneficiando todo o sistema.

Outra forma de reduzir custos para a seguradora, é focar em cuidados que mantenham os pacientes fora dos hospitais, dos centros de saúde, destaco aqui dois caminhos: o empoderamento dos pacientes em hábitos saudáveis, (segundo a ASAP (Aliança para a saúde populacional), 50% dos determinantes de saúde são os nossos hábitos) e o investimento em organizações que promovem um atendimento holístico, como atendimentos domiciliares, proporcionando eficiência e qualidade.

UM CASO DE SUCESSO: HOME CARE BUURTZORG

Buurtzorg, uma organização que revolucionou o modelo de home care na Holanda, onde não há hierarquia entre os profissionais, onde cada time de enfermeiro organiza o seu próprio trabalho e utilizam tablets para registrar, consultar e trocar informações, visando a qualidade de vida dos pacientes.

“Os enfermeiros me ajudam a vestir a roupa, tomar a medicação e sempre me lembram de não comer chocolate. Não que eu já não saiba”, diz Zeeuw, em tom de brincadeira.” mas é sempre bom ter alguém que se preocupa com a minha saúde todos os dias.” (O que faz do sistema de saúde na Holanda o melhor da Europa. Revista Exame, 2018).

CUIDADO A LONGO PRAZO

Em relação ao cuidado de longo prazo, é um seguro social estatutário, financiado pelos impostos pagos sobre os salários e complementado com verba do governo central. As contribuições são depositadas no fundo do Cuidado a longo prazo, administrado pelo Instituto Nacional de Saúde.

É voltado para os grupos mais vulneráveis ​​da sociedade, como idosos em estágios avançados de demência, pessoas com problemas físicos ou intelectuais graves e pessoas com transtornos psiquiátricos de longo prazo.

Para acessar este serviço, o cliente entra em contato com a Agência de Avaliação de Cuidados (CIZ), o qual determina o tipo de assistência, realizando a avaliação das necessidades.

Fonte: Healthcare in the Netherlands. Ministry of Health, Welfare and Sport.

O CIZ entra em contato com o escritório de administração de serviços de saúde (ZORG), que gerencia os cuidados, que discute a situação com o cliente, e a preferência de serviços, como lar de idosos ou se quer continuar morando em casa, desde que seja de uma forma segura. Assim, o cliente e o prestador elaboram um plano de cuidados de saúde ou pode também acrescentar, mas de forma extra financeiramente, outros cuidados. Se o cliente não estiver satisfeito com os cuidados prestados, ele tem a opção de mudar de profissional de saúde contratado, desde que provedor possa acomodá-los. O ZORG também define os requisitos de qualidade e competências mínimas dos profissionais para aquele cuidado específico.

Os tipos mais comuns de atendimento são:

• Permanência em um estabelecimento de saúde: prolongada ou em um lar de idosos ou uma acomodação específica para pessoas com deficiência mental;

• Cuidados pessoais: assistência para lavar, vestir, usar o banheiro, comer e beber;

• Cuidado que aumenta a autoconfiança: ajuda na estruturação no dia-dia, ganhando maior controle e aprendendo a desempenhar tarefas domésticas;

• Cuidados de enfermagem: assistência em feridas ou administrando medicações;

• Tratamento médico ou comportamental que ajuda na recuperação ou melhoria de uma condição específica;

Transporte: para pessoas cuja condição médica impede que eles viajem de forma independente.

Vimos então que este modelo, proporciona um cuidado humanizado e personalizado. Trago aqui uma história citada em uma Webinar (Envelhecimento durante e pós COVID-19- Como os países estão se organizando. Designing saúde e INLAGS), pelo  Michiel Korstee, pesquisador e consultor em saúde:

Diante deste cenário do COVID-19, foi repensado o protocolo de triagem, para as pessoas acima de 70 anos, era mais uma conversa com a família e o paciente sobre as chances de sobrevivência, com maior foco na qualidade de vida desta pessoa.”

A questão vai muito além, de economia de recursos, a questão nesta conversa é a autonomia, dando a oportunidade de decisão ao paciente sobre a sua vida, a sua terminalidade. E o vínculo entre o profissional com o paciente e os familiares possibilitou esta conversa.

Concluindo, no contexto brasileiro, estes elementos de maior vínculo com o paciente, competitividade por qualidade, de redução de custos, foco na promoção e prevenção da saúde podem ser aplicados e/ou fortalecidos em nosso ambiente, possibilitando assim a nossa população, um envelhecimento ativo e sustentável.

Autora: Larissa Yumi Yamamoto
Enfermeira, MBA Administração Hospitalar e de Sistemas de saúde FGV e Aprimoranda PROAHSA- Hospital das Clínicas da FMUSP.

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Fernando Cembranelli, MD Unifesp/MBA Dukefernando@hihub.tech

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Sobre Fernando Cembranelli

CEO e Founder do Health Innova HUB, Ecossistema Digital de Inovao em Sade. Mdico formado pela UNIFESP, com Residncia Mdica, em Administrao Hospitalar, pelo Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da USP e MBA com foco em Healthcare Management pela Duke University Foi Co-fundador do EmpreenderSade, Gerente do Centro de Inovacao do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da USP e Partner da Live Healthcare (Portal Sade Business, Sade Business Frum e Healthcare Innovation Show).

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