Entrevista com o médico português, desenvolvedor e empreendedor João Magalhães, co-fundador da Iterar

Por indicação do empreendedor brasileiro, Fernando Pimentel,  que está morando em Portugal, pude conhecer o João Magalhães, médico, desenvolvedor e empreendedor, que está da empresa Iterar, está desenvolvendo ÓTIMAS soluções de saúde

Vídeo: Entrevista com João Alves, da Iterar e Fernando Cembranelli, do Startup Saúde Brasil

1) Como médicos, porque abriram uma software house na área de saúde?

Devido aos nossos percursos académicos e às oportunidades detectadas nesse caminho. Tanto eu como outro dos fundadores, Tiago Alves, estivemos em contacto direto durante 6 anos com a realidade da prática da medicina, tendo terminado o curso com teses de mestrado relacionadas com a área de informática médica . A minha era acerca de registos clínicos e interoperabilidade com recurso ao OpenEHR e a do Tiago com uma proposta de um sistema de apoio à decisão na área da patologia mamária. Para além disso tivemos várias oportunidades de experienciar problemas no exercício da medicina. Por exemplo, acompanhei o serviço de anestesiologia do Hospital de São João no Porto com o intuito de analisar a forma como os profissionais de saúde interagiam com o software de registo em diferentes tipos de consulta. Dois dos principais problemas detectados foram a redundância de informação e falta de interoperabilidade entre os mesmos, problemas que com as tecnologias existentes poderiam ser ultrapassados.  Para além disso, certas rotinas dos médicos poderiam ser optimizadas com o objectivo de reduzir o tempo de consulta e aumentar a eficiência do médico automatizando certas fases da consulta, como por exemplo nos cálculos de risco pré-operatório de determinado paciente.

Para além do percurso na medicina, desde cedo adquirimos experiência no desenvolvimento de software trabalhando tanto em projectos freelancer como noutras empresas.  Desta forma conseguimos pôr em prática os projectos a que nos propusemos sem necessidade de recorrer a ajudas externas.

Assim, tendo facilidade na comunicação com os médicos e profissionais de saúde, facilidade de compreensão das dificuldades que estes têm no exercício da sua profissão e munidos com conhecimento no desenvolvimento de produtos, criamos a iterar.  Aliamos a paixão pela tecnologia e saúde para descobrir várias oportunidades de aplicação da tecnologia para melhorar a qualidade dos serviços na medicina.

Resumindo, a criação da empresa teve como base os seguintes pontos:

  • ajudar a transformar a saúde a partir da minimização da interferência na comunicação entre médicos e informáticos
  • ajudar empreendedores que não entendem de TI mas sim do negócio de saúde a materializar as suas ideias
  • ajudar a trazer inovação para os grandes grupos de saúde sem que estes se tenham que desfocar das suas atividades diá Funcionando assim como um laboratório de ideias, onde se poderão testar as inovações que irão marcar o futuro destas empresas.

Funcionamos como uma software house que procura ativamente clientes com necessidade da nossa experiência, rapidez e conhecimento técnico para o desenvolvimento de produtos na área da saúde.

Iterar

Foto: Time da Iterar (João Magalhães, ao centro, acima)

2) Por que vocês decidiram focar na área de saúde?

A maioria dos desenvolvedores de soluções na área da saúde possuem um percurso na áreas de IT e somente depois se especializam na saúde. Acho que existem grandes vantagens no percurso oposto. Por exemplo, na comunicação com os profissionais de saúde de forma a entender os problemas e poder definir de forma clara as especificações de sistemas a implementar. Muitos dos projectos tecnológicos nesta área pecam exactamente por este fosso existente. Assim, as nossas bases de conhecimento e equipa multi-facetada levam a uma diferenciação neste mercado da saúde.
Um bom exemplo de sucesso onde a nossa proposta de valor foi evidente é o da knok. A knok é um serviço de médicos ao domicílio na qual a nossa equipa ficou responsável por todo o processo de definição e desenvolvimento do produto. Para além do conhecimento técnico web e mobile (android e iOS), fomos importantes também nos seguintes pontos:

  • recrutamento de médicos usando a nossa rede de associados
  • facilidade na comunicação com médicos e pacientes para levantamento de requisitos e melhoramento contínuo

Temos como objectivo trabalhar em conjunto com os profissionais e incentivámos a que estes nos contactem de forma a podermos melhorar a área da saúde.

3) Quais são as principais soluções que já desenvolveram e qual o impacto que tiveram ?

A knok (http://www.knokcare.com/) pode ser facilmente descrita como um uber para médicos. O paciente tem necessidade de uma consulta, chama o médico e este desloca-se à casa do paciente. A iterar foi responsável por todo o desenvolvimento (web, iOS e android) e especificação do produto. Desde o lançamento o número de consultas cresce a um ritmo de 15% à semana e já ultrapassamos os 3500 utilizadores só em Portugal. Devido a este sucesso, a knok conseguiu fechar uma ronda de investimento de 300.000€ por parte de uma VC londrina para serem aplicados na consolidação em Portugal e expansão para Espanha.

O VRCare (http://vrcare.io/) tem como objectivo a criação de um protocolo de tratamento para a fobia de voo recorrendo à realidade virtual. Para tal estamos a proceder à validação científica em conjunto com o nosso medical partner, o psiquiatra Filipe Pinto, cuja tese de doutoramento na universidade de Leiden na Holanda terá como base a aplicação deste tratamento e análise dos seus resultados. Neste momento temos um protótipo (já a ser aplicado) que é constituído por um ambiente virtual de um avião por nós desenvolvido, Oculus Rift e uma cadeira adaptada que simula a turbulência. Da aplicação do protótipo temos resultados promissores visto que tratamento apresenta uma boa eficácia comparativamente aos aplicados atualmente.

O The Scientist (https://itunes.apple.com/us/app/the-scientist/id657192313) é uma aplicação iOS que agrega artigos científicos de acordo com o número de partilhas nas redes sociais. Aplica uma métrica alternativa para ranking dos artigos que tem em conta as partilhas/favoritos nas redes sociais mais comuns (twitter, reddit, facebook) como em mais específicas da comunidade científica (mendeley), dando relevância também à data da publicação. Assim, o investigador, médico, estudante ou curioso pode ter uma vista diária dos artigos relevantes na comunidade científica. Temos mais de 20.000 utilizadores na plataforma.

O MAPI (http://mapi-us.iterar.co/) é uma API que permite aos utilizadores aceder à informação atualizada sobre fármacos. Está adaptada aos EUA e a ser utilizada por algumas empresas que pretendem aceder a este tipo de informação nas suas aplicações. Para além dos EUA, fizemos adaptações para o Brasil. No entanto de momento apenas está disponível para uso privado de um cliente brasileiro.

4) Quais as áreas na saúde, em que vocês vêem as maiores oportunidades para a transformação digital ?

Antes de detalhar, gostaria de realçar que existem de facto bastantes oportunidades de inovação pelo facto de a saúde ser uma área que tem assistido uma evolução tremenda nas práticas levadas a cabo pelos seus agentes (medicina baseada na evidência, meios complementares de diagnóstico, formação…). Contudo, esta evolução não foi acompanhada pela inovação na aplicação das TI a esta área. A maior dificuldade hoje reside na questão da operação vs inovação. É muito difícil para quem já está focado em algo parar para focar em num processo de inovação que requer criatividade, inúmeros testes e validações, ou seja, antes de mais nada há oportunidades que hoje não são aproveitadas pela falta dos parceiros certos, e nesse sentido a própria iterar é uma inovação no mercado de saúde pois foi criada para ajudar a interligar todos esses atores em torno da inovação. Aí a iterar tem um boa proposta de valor permitindo que o ecossistema de saúde (empresas, empreendedores, pesquisadores, etc) tenha alternativas inteligentes para inovar.

Meios de entrega de serviços de saúde – com o aumento do uso de wearables e consequentemente sistemas de monitorização contínua, os serviços de saúde passarão a ser prestados noutros locais mais confortáveis para o paciente (casa, local de trabalho) para além dos clássicos (hospitais, clínicas). Estas novas condições de monitorização e prestação de cuidados poderão levar a um investimento das seguradoras que para além da diferenciação de serviço, também poderão prever complicações, cortando custos. Este facto tem importância num país como o brasil em que cerca de 1/4 da população está coberta por seguradoras privadas.

Comunicação médico-paciente – comunicação com recurso à telemedicina.

Registos clínicos – Melhoria da comunicação entre hospitais através da padronização da comunicação entre diferentes sistemas clínicos, mesmo que os softwares sejam de diferentes empresas (interoperabilidade).

Diagnóstico e tratamento – redução do erro médico com recurso a sistemas de apoio à decisão inteligentes (inteligência artificial). Exemplos: avisos de interações medicamentosas; deteção de padrões anormais em exames de anatomia patológica, endoscopia e radiologia.

5) Vocês têm planos de vir ao Brasil ?

Sim, faz parte dos nossos objectivos estar presentes no brasil e para isso estamos a planear uma visita em maio. Temos como mentor o Fernando Peixoto, sócio-fundador da Pixeon, que está a ser uma ajuda vital nesta preparação. Nesta visita temos todo o interesse em conhecer os principais agentes na área da saúde – startups, investidores, aceleradoras e corporações (seguradoras, grupos hospitalares…). Pedimos que nos contactem para podermos partilhar ideias presencialmente quando formos ao brasil.

Com a nossa presença no brasil pretendemos com a nossa experiência na área da saúde e no desenvolvimento de produto, ajudar empresas a lançar novos produtos com vista a serem bem sucedidos no mercado.

Acreditamos que em um mundo cada vez mais globalizado as barreiras geográficas não fazem sentido quando falamos de inovação. Temos clientes nos EUA, aqui na Europa e estamos ampliando nossa atuação para o Brasil dada algumas facilidades como a língua, o tamanho do mercado e o momento que o ecossistema de saúde brasileiro vem vivendo, com muitos investimentos e empresas bem sucedidas. Sabemos que precisamos conquistar a confiança desse mercado também, pois esse é um valor indispensável no relacionamento de um estúdio criativo como o nosso e seus clientes. Por isso acreditamos que com nossa proposta de valor, nossos preços competitivos até para a realidade brasileira o único ingrediente que falta é estabelecermos esse vínculo real através do olho no olho, do aperto de mão.

Qual o site de vocês: http://iterar.co

Mini-biografia dos founders:

João Magalhães – Médico empreendedor. Tem como objectivo aliar a saúde e tecnologia usando como principal arma o software.

https://www.linkedin.com/in/joaocarlosmagalhaes

https://twitter.com/joao_mags

http://joaomagalhaes.me/

André Sousa – Doutorado em Bioquímica. Mobile developer.

https://www.linkedin.com/in/andrealvessousa/

https//twitter.com/_andre_sousa

Tiago Alves – Médico e desenvolvedor de software. Interesses: health tech, decentralized systems & AI.

https://www.linkedin.com/in/alvesjtiago/

https://twitter.com/alvesjtiago

http://tiagoalves.me

Tiago Craveiro – Engenheiro gestão e industrial. Gestor de produto. Conectando o mundo real ao mundo tecnológico.

https://www.linkedin.com/in/tiagocraveiro

Sobre Fernando Cembranelli

Médico formado pela UNIFESP, com Residência Médica pelo Hospital das Clínicas da FMUSP e MBA com foco em Healthcare Management pela Fuqua School of Business (Duke University). Co-fundador do site EmpreenderSaúde, sócio da Live Healthcare Media e CEO do Health Innova HUB/Berrini Ventures (Hub de Inovação em Saúde e Aceleradora de Startups de Saúde Digital, líderes no Brasil)